sábado, 23 de junho de 2007

Caminhos - Capítulo III

Era estranho pensar que um dia eu poderia discernir as faces diáfanas do caráter de Espasmos diante das fortes influências dos homens adornados em retórica. Eu amava todas as formas doces dos sentimentos profundos das trajetórias inúteis de todos os que buscam argumentar sobre os pilares do templo. Mas agora, fortíssimo, sinto que as reações mais salutares estão ocultas entre as manhãs de contemplação daqueles que desejam amplamente afeiçoar-se aos pensamentos vãos de saída e entrada ontológicas. Como caberíamos nestes sentidos confusos de ações pormenorizadamente determinadas se Espasmos sentia profundo asco por todas as ilusões fomentadas pelos seres bestiais que se acomodam em orgias escolásticas, procurando sanar as imperfeições daqueles que lhes parecem distantemente colocados nas margens agudas das orientações sociológicas?

Aqui eu depus algo sonoramente desconexo aos ouvidos harmônicos das pessoas. E sentia que Espasmos, prontamente, arremeteria suas convicções contra todos os que se mostrassem antagônicos.

sábado, 16 de junho de 2007

Caminhos - Capítulo II

(Salão do automóvel)



Não, é incogitável a idéia de que Espasmos desistisse. Jamais o perceberíamos como uma volúvel identidade, pulsando em todas as direções pela forma oca do existir. Nós éramos assim. Espasmos não. Contudo faltava-lhe a essência primordial dos veículos de satisfação psicofísica. Ele se mostrava imberbe com relação a isso, a ponto de o apreciarmos mais pelas suas características ontológicas que pragmáticas.

E assim, distanciado de todos os nossos intentos subjetivos, Espasmos orientava seus sentidos na direção dos cosmos onírico de seu lar. Lá ele percebia o quanto suas orientações eram importantes. Lá ele percorria a solidez das imensidões factuais do dia, ratificando as noções mais presentes dos percursos quotidianos, sem atentar para as ululações das entidades que nos cercam. Entidades sólidas, plácidas, gentis; mas dotadas da agudeza marcada de todos os gritos insurgentes. Apenas plásticas e materiais.

Todos nós conhecíamos tais ideários.

Eu os conhecia.


sexta-feira, 15 de junho de 2007

Caminhos - Capítulo I


Sentíamos, naquele instante, que nada seria resolvido. E era só. Nada mais faria com que aqueles olhos esbugalhados de Espasmos se desviassem do que ele almejava. Era só. E todos tínhamos consciência de que a morte poderia vir por causa disso. Mas talvez fosse nosso destino sentir tudo aquilo que o mundo nos impunha. Era seu desejo. Deveríamos nos curvar, aceitar, correr atrás do que nos sobrava como alento. E era só. Não mais retornaríamos ao estágio inicial das coisas, não mais lutaríamos contra a fome dos que tem sede. Eles sabiam que em algum momento tudo se voltaria contra eles próprios. É o caminho do mundo, é o modo como as coisas são. E era só. Todos sabíamos disso, e teríamos que aceitar tudo da forma como nos ordenavam. "Nós entendemos a lei".

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Caminhos - Introdução


A sedução das coisas que equilibra o dia-a-dia mundano reflete os espasmos que nos afrontam corriqueiramente pelo dobre dos sinos. Assim, nossos intentos são determinados pela corrente das ideologias que nos possuem a todo instante, como se as forças determinantes do nosso existir fossem moldadas de acordo com os tempos de cada um dos objetos sem valor que nos acomodam. Assim é Caminhos.

Observando o estado das coisas, nossos olhos interiores descobrem aleijados pensamentos, dotados de índoles propensas ao infortúnio. Caminhos determinará em que sentido esse infortúnio prolongará nossas formas substaciais no vir-a-ser. Não mais a fala moldadora que acrescenta vestígios de erupções em todos os sentimentos que servem de pão e circo ao mundo, mas a escrita que difama, que difere, que levanta nossas cabeças para abrí-las ao meio. Caminhos seguirá este percurso por todo o tempo de sua existência, e não mais se rirá disso.